Irmão Rocha #1
O assunto está morrendo, já não é mais novidade e parece quase que definitivamente esquecido – salvo possíveis futuras conseqüências em vendas da marca ou do modelo, o que particularmente duvido. Mas gostaria de voltar a ele: o caso da argola decepa-dedo do Fox. Não para dizer se a culpa é da VW, da argola ou do senhor japonês que levantou a história e tornou-se espécie de porta-voz das vítimas, mas sim para discutir o papel da imprensa automotiva neste lamentável episódio.
Acho que a imprensa automotiva brasileira perdeu excelente, excepcional chance, de discutir e até rever seu próprio papel, posto a argola e o anel de borracha. E me sinto à vontade para falar a respeito, pois é nesta área que atuo todos os dias.
O caso é que o tal acidente com o banco do Fox não teve como origem da notícia, do assunto público, a imprensa automotiva. E mesmo se, algum tempo atrás, um ou dois veículos do setor noticiaram o caso, o que desconheço, obviamente não foi devidamente levado a sério ou repercutido da forma que deveria – e como depois aconteceu.
Pois, até onde acompanhei, e creio que bem acompanhei, o assunto foi abordado, com a profundidade que merece, apenas pela revista Época. Que é das Organizações Globo, que possui sua própria revista sobre automóveis, a Auto Esporte. Época noticiou o fato como era de sua função: como uma matéria de geral, de comportamento, de acontecimento, que seja. Me disseram – e não sei se é verdade – que a vítima porta-voz procurou, inicialmente, revistas especializadas para fazer a denúncia, mas não foi ouvido. Apenas Época se interessou, e por isso merece todos os elogios.
Não sei se é verdade, repito, mas creio que há, nisso, muita lógica. Se eu não fosse jornalista, nem conhecesse nenhum, não conhecesse os meandros da imprensa e pretendesse contar para um órgão de mídia um acidente relacionado ao meu automóvel, procuraria revistas de automóvel para falar a respeito, inicialmente. Faz todo sentido! Mas vamos dizer que não, que de uma forma ou outra Época ficou sabendo de maneira isolada do fato e decidiu publicar a notícia. Ainda assim o papel da imprensa automotiva foi vergonhosa.
Pois ninguém, absolutamente, repercutiu o caso. Nem mesmo os muitos sites especializados em automóveis espalhados pela web. A seguir os jornais do Grupo O Estado de São Paulo publicaram a notícia, mas não em seus cadernos de automóveis mas, mais uma vez, dentro do noticiário geral, apesar de o Jornal da Tarde possuir o mais tradicional caderno de veículos do segmento, o Jornal do Carro.
Apenas quando as TVs Globo, Record e SBT repercutiram então a notícia a partir das matérias do Estadão e do JT e a própria montadora foi obrigada a assumir uma posição – não importa aqui qual – finalmente a imprensa automotiva resolveu citar o caso. E não satisfeita com o papel vergonhoso que fizera antes em fingir que de nada sabia, tomou papel vergonhoso ao quadrado quando, do nada, e de repente – e o mais importante, quando o estrago para o lado da montadora já era mais do que público e notório – decidiu tomar a posição, extremamente tardia, de super-defensora do consumidor. E novamente o fez de maneira inadequada.
Praticamente todas as publicações do setor, então, publicaram a história basicamente repetindo a matéria de Época, já então de semanas. Disseram que há oito vítimas, mas usaram sempre o mesmo porta-voz, o senhor japonês. Nenhuma publicação, até onde eu sei, teve a capacidade de ao menos tentar outra nova fonte dentre as sete outras vítimas que existiam para averiguar a história, ou entendê-la melhor. Nada. Apenas repetiram Época, quase todas sem o devido crédito e, em alguns casos, ainda se vangloriando de dar a notícia em primeira mão.
E erraram ao, de repente, não mais do que de repente, atacar a VW. Disseram todas, em tom de severa crítica, que, vejam vocês que absurdo, a montadora não quer convocar recall!!! Mas que coisa. Deveriam saber, os jornalistas especializados de veículos especializados, que casos de recall referem-se apenas a risco de acidente/ferimento/morte na condução e uso do veículo propriamente dito.
Por exemplo: se determinada montadora descobre que a porta de um carro pode cair a 100 km/h em uma estrada ela não é obrigada a convocar recall. Pois mesmo se a porta cair o motorista continuará com o controle do veículo, e preso ao banco do motorista ou passageiro, visto que estará com cinto de segurança. Se isso é um absurdo é outra história: estou dizendo apenas o que é caso de recall. Mas, ao mesmo tempo, se a montadora descobre que há micro-fissuras nas rodas, que podem trincar e depois quebrar numa estrada a 100 km/h aí sim este é caso de recall, pois corre-se o risco de perder o controle do veículo.
E errou mais uma vez em peso a imprensa automotiva ao dizer que a VW está fazendo recall branco da tal argola com o tal anel de borracha. Recall branco é quando a montadora descobre que há determinado problema e orienta sua rede de concessionárias e oficinas a corrigir tal problema quando o carro por lá aparecer, sem o conhecimento do consumidor. Se há conhecimento do consumidor em substituir ou corrigir tal peça ou parte na rede da marca – ainda que não seja convocado recall – não é recall branco. A imprensa especializada deveria saber disso também.
No meu ponto de vista errou a imprensa automotiva neste caso, duas vezes. Na primeira foi omissa e na segunda covarde, ao bater em cachorro morto e só depois de ter certeza que não seria prejudicada ao publicar a notícia, visto que o estrago para o lado da montadora já estava feito. Considero lamentável e me incluo neste rol de lamentáveis, visto que eu como jornalista do setor também nada publiquei a respeito ainda que desconhecesse o caso.
Mais curioso ainda foi notar que numa interessante e ativa comunidade de jornalismo automotivo no Orkut, com número grande de associados, não há qualquer comentário sobre o caso. Creio eu que das duas, uma: ou nenhum jornalista do setor automotivo fez uma autocrítica a respeito ou ficaram todos com vergonha de falar. Acho, infelizmente, que a primeira opção é a mais provável.
Atravessada Irmão Rocha #2
O exemplo da argola do Fox é muito bom para elucidar os valores que norteiam a profissão de jornalista no País, especialmente dos jornalistas que se dizem “especializados” no setor automotivo. Ele não é único. Vemos isso todos os dias nos sites, cadernos, revistas, blogs, e TVs “experts” no assunto.
Primeiro que a esmagadora maioria desses profissionais sequer possui tempo suficiente no segmento, um dos mais complexos da área industrial por tratar de tecnologia, segurança, vidas – muitas por sinal – e desempenho tanto do produto quanto da própria indústria. Como dizia um jornalista das antigas: “Janela é tudo nessa profissão. Não dá pra ver a banda tocar da cozinha”.
Para as empresas, ou melhor, as assessorias de imprensa, que também têm grande culpa no cartório por adular jornalistas importantes e relegar ao esquecimento aqueles que não dão mais “centimetragem” aos seus objetivos de ficarem bem na fita da mídia nacional, é conveniente apostar na baixa formação do profissional da comunicação.
Em verdade, as assessorias contribuem para a especialização do jornalista na medida em que abrem centros de tecnologia, fábricas e dispõe os executivos para um contato cara-a-cara, bafo-a-bafo. Mas não aceitam críticas e quase nada de negativo que sai na mídia – tudo de ruim é classificado de “imprensa marrom”.
Faz sentido essa postura arrogante: os executivos-chefes podem interpretar a linha-dura editorial de determinada publicação e texto ácido (mas que conta a verdade) do jornalista como uma falha no seu trabalho, na sua influência de mudar posições da imprensa. E aí, bau-bau o emprego. É assim que bons jornalistas militantes do outro lado do balcão vendem a alma ao diabo. O preço, ou melhor, o salário, compensa, dizem assessores mais despachados. Me pergunto: e a consciência, não pesa?
Muito bem. Voltando aos repórteres e aos editores da imprensa autoproclamada “especializada”. Os jovens, como disse, não têm experiência suficiente para bater de frente e se contentam com carros de testes, baladas, às vezes viagens para lugares paradisíacos e o prestígio de fazer parte de setor que representa importante fatia do PIB nacional.
Os mais antigos parece que não têm fôlego – fumaram cigarro demais, hahaha – e depois de passar por vários empregos se contentam em reproduzir as notícias oficiais, gestadas pelos próprios departamentos de comunicação das empresas. A prática é comum em todas as idades: ctrl+C, ctrl+V e tá tudo certo.
Bom, tenho que reconhecer que em toda regra há exceções. E que no conhecido setorrr automotivo existem jornalistas de primeira linha, que correm atrás da notícia e de forma alguma são corrompidos pelo “sistema”.
Mas pela contaminação da maioria que uma editoria de geral deu o importante furo do caso do Fox. Se você fizer uma pesquisa na web sobre uma determinada notícia do setor automotivo, encontrará muitos textos parecidos. A idéia, pelo menos, é igual em diversos veículos de comunicação.
E por todo esse círculo vicioso e viciado que somos obrigados a conviver com pessoas que sequer são jornalistas e fazem parte desse mundo. Eles estão atrás de prestígio, muitas vez de um bom bife e se sobrar uma voltinha num carro zero sobre o pretexto de “fazer uma criteriosa avaliação do produto”, melhor ainda. Conversa pra boi dormir.
O maior absurdo é que esses tipos estão fazendo escola. Veja nesse link http://www.autiv.com: um americano ensinando os entusiastas por automóveis a como se tornar um pseudo-jornalista especializado no setô. Alguém tem que fazer alguma coisa.
Não aceito e, por tudo isso, me indigno e atravesso.
Malandrão,
vc tá afiado (cuidado com o dedo!!!). Gostei de ver, vou virar leitor (ou “surfista”? Que viadagem!) do Bróg!
Saudações alvinegras
Comment por Felipe Seibel — 7 Março 2008 @ 101017 pm |