Acontecimentos importantes movimentaram o mundo do jornalismo recentemente. Comemorou-se (discretamente) a votação positiva no Senado para a obrigatoriedade do diploma ao mesmo tempo em que o passaralho rodou solto em redações como no Estadão e em outros grandes veículos. O trend topics, contudo, foi a capa do carioca Meia Hora, que trouxe à tona a sentida ausência do Notícias Populares.
E foi um tal de curtir e comentar a ousadia e a genialidade do titulo sobre o casal número 1 do jornalismo, como se nenhum outro periódico tivesse capacidade de fazer o mesmo. O Meia Hora apenas saiu na frente com um trocadiho (do cara*#!) de alto impacto e resultado, nada que outro jornalista ou jornal não poderiam ter feito.
Agora, eu quero ver os geniozinhos da grande mídia repetirem a sacada com assuntos cotidianos, como a corrupção, os escândalos, as tragédias, o descaso e a vida política nacional. Tem material farto aí pra encher páginas com trocadihos (do cara*#!), o que não existe é culhão pra esse tipo de jornalismo, muito mais afeito ao leitor do que aquilo que a mídia oferece ao público diariamente.
O Notícia Populares é (ou foi) a referência nacional. Mas existem outros jornais nessa linha ousada e independente por ai. O chileno The Clinic, talvez seja um dos grandes nessa área. A polêmica independente está por todos os lados do jornal, que esbanja humor ácido com credibilidade e uma linguagem solta, quase como o povo fala. Resultado: o The Clinic saltou das páginas e expandiu sua atuação em diversas áreas como um bar, no centro de Santiago, na verdade um casarão de três andares decorado com as manchetes ácidas do semanário e da revista. Sucesso absoluto, o Bar The Clinic é o local predileto pro happy hour e pros carretes (baladas) dos mais badalados na capital chilena. E, claro, dos intelectuais e da imprensa local.
Isso sim é que eu chamo de imprensa independente. A questão aqui no Brasil está mais relacionada com a sustentação jurídica à mídia do que a falta de linha editorial ou jornalistas verdadeiramente ousados nas redações.
Qualquer um pode processar jornalista ou jornais caso se sinta ofendido por alguma matéria (políticos e artistas abusam desse expediente). E em muitos casos são eles os vencedores nos tribunais, acuando os departamentos jurídicos das empresas de comunicação e, consequentemente, a linha editorial e a redação do veículo.
Essa tem sido cada vez mais uma ótima desculpa oficial pra explicar o inexplicável: “perseguição da imprensa”, se defendem em meio holofotes, câmeras, bloquinhos e microfones esses personagens da vida brasileira. E o pior é que tem coleguinha que publica, dá voz, a bobagem como essa.
É também verdade que a mídia brasileira está esfacelada, perdida em seu próprio conceito de noticiar tudo, absolutamente tudo. Critério, coesão, “esforço de reportagem” são reservados a poucos profissionais e veículos, pois na redação a competição pra estar “no ar” dita o ritmo das notícias. Aliás, a palavra competição caiu bem, pois é por isso que o jornalismo está na merda. Menos, vai. Gostaria de ver um movimento corporativista por parte da comunidade da comunicação. Mas pelo andar das manchetes insossas, dos salários e do passaralho cada vez mais presente, não vai sobrar jornalista com senso comunitário de classe pra contar essa estória…

